Eu não celebro o Natal porque não tenho religião.

Não sou cristã.

Pra mim, é um dia comum, em que eu trabalho, faço as tarefas de casa e passo o tempo com o meu filho e com o meu marido. Eu não vou às festas de família nesse dia, mas isso não muda o fato de que eu desejo coisas boas pra todos o tempo inteiro, todos os dias, ou pelo menos eu tento kkk. Eu não sinto a necessidade de precisar de uma data no calendário pra me reunir com aqueles que eu amo. Eu gosto da liberdade de fazer isso sempre que é possível, pra todos.

E quanto aos presentes, honestamente, quanto mais o tempo passa, mais eu vou achando isso fútil. Eu gosto de demonstrar amor pelas pessoas estando sempre disponível caso elas precisem, sendo sempre honesta e verdadeira com elas, com os meus valores e sentimentos, desejando sempre o bem a elas, lutando por um mundo melhor, também, por elas. Não vejo necessidade de ficar comprando coisas inúteis ou gerando mais lixo. Inclusive, acredito que deveria ser normalizada aquela iniciativa de fazer doações para uma ONG como presente para alguém. Isso ainda é tão incomum que eu pensei em fazer isso uma vez no meu aniversário e me senti meio patética. Eu nem sequer gosto que as pessoas gastem o dinheiro delas comigo, justamente porque eu não PRECISO de nada.

E isso é algo que eu e meu marido vivemos conversando sobre, porque a gente tem o costume de falar “eu preciso disso” e daí a gente se questiona se realmente PRECISA, ou se é um luxo. Na maioria das vezes, a gente desiste de comprar, porque acaba percebendo que existem outras coisas mais importantes pra priorizar com o dinheiro que a gente iria gastar com aquilo.

O Natal se mantém por tanto tempo como tradição por conta do capitalismo, que vive constantemente alimentando a nossa cabeça com essa falsa necessidade de que precisamos de coisas inúteis e de que precisamos demonstrar nosso amor pelas pessoas com presentes fúteis. Quando comecei a conhecer mais sobre a quantidade de lixo que geramos, o impacto ambiental disso, e a me perguntar “será que eu realmente preciso dar mais uma decoração pra casa da minha mãe?” ou “será que eu realmente preciso de mais um vestido?” e percebi que eu não PRECISO, minha visão começou a mudar. Eu consigo demonstrar amor de outras formas pras pessoas. Comecei a fazer presentes reciclados, kkkkk, parece bobo, e eu tenho extrema vergonha de dar pras pessoas com medo do julgamento, mas eu acho que elas gostam de se sentir lembradas, não do presente em si. Posso estar errada, mas essa é a minha visão até aqui.

E também, por que eu precisaria de tantos pares de sapato? Por que preciso de tantos cremes, tanta maquiagem, tanto de tantas coisas? Qual é a necessidade REAL além daquilo que foi nos empurrado goela abaixo pelo capitalismo ao longo das nossas vidas, através de publicidades e anúncios em todo lugar possível, que a gente às vezes nem percebe que estão nos influenciando a acreditar que a gente PRECISA? Tanta gente sobrevivendo com tão pouco e a gente gastando com tanta coisa EXTRA, que vai virar lixo em poucos anos. Tanta gente se endividando pra comprar presente pros outros nessas datas, sendo que nem sequer conseguem pagar as próprias contas. Tanta gente comprando qualquer coisa só pra falar que deu algum presente.

Eu penso nas pessoas ao meu redor na hora de escolher presentes e fico me perguntando “o que será que elas realmente precisam?” e, honestamente e felizmente, acho que elas não precisam de mais nada. Dentro desse meu círculo social privilegiado, meus familiares e amigos têm casa, têm comida na mesa, têm roupa pra vestir e acesso a estudo. O sentimento que fica é o de desejar que eles estejam bem e que saibam que eu estou aqui caso precisem, que usem o dinheiro que iriam gastar comprando presente pra mim pra pagar suas contas e continuar bem, com saúde física e mental suficiente pra conseguir olhar além de si e se preocupar com problemas reais do mundo.

Fora tudo isso, pra mim é repugnante a hipocrisia de celebrar uma data que representa o amor, a paz e o nascimento de Cristo, que pregava empatia, compaixão e bondade, com um monte de animal morto na mesa, que foi forçado à vida pra ser confinado em campos de concentração lotados, sendo retirado da sua família e privado dos seus instintos naturais, com o objetivo de ser assassinado para o gigante ritual religioso que é o Natal. Essa é a principal razão pra que eu não frequente festas de Natal. Eu sempre sinto um vazio enorme dentro de mim quando penso em todos os animais que foram explorados pra chegar aos pratos, justamente pra seguir com essa tradição banhada em sangue e crueldade.

Então, nesse Natal, te convido primeiro a refletir sobre a real necessidade de ter que esperar por uma data comemorativa pra se reunir com a sua família ou pra demonstrar o seu amor e, se quiser começar a direcionar melhor seus presentes para ONGs, existem iniciativas que ajudam nisso de forma consciente. O Giving What We Can é uma organização de alcance global, exatamente o que o nome propõe, Dar O Que Podemos, que incentiva doações acessíveis e sustentáveis, direcionadas de forma estratégica pra onde cada real faz a maior diferença possível no mundo. Ela produz recomendações de instituições altamente eficazes e oferece materiais educativos sobre doação com base em evidências, usando uma metodologia que parte das causas mais promissoras, como saúde global, bem-estar animal e riscos existenciais, depois avalia sub-causas e, por fim, compara programas e ONGs dentro dessas subáreas pela relação custo-efetividade, ou seja, quanto bem geram por unidade de dinheiro. Já a Doe Bem é uma plataforma nacional, voltada para o Brasil, que conecta pessoas a ONGs confiáveis e projetos de impacto social, facilitando doações conscientes pra quem quer gerar impacto real aqui, agora.

Que a gente consiga se libertar cada vez mais da ideia de que o amor precisa de data, de embalagem ou de preço. Que todos os dias sejam Natal, no sentido mais profundo da palavra. Que a gente se sinta motivado a tratar as pessoas com mais empatia, mais compaixão e mais presença, não só quando o calendário manda, mas todos os dias. E que essa empatia consiga ir além de nós, além da nossa espécie, pra que cada vez mais animais também tenham o direito de viver em paz, em liberdade, onde e com quem eles quiserem.

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